Auto-retrato (bem pessoal)
Um espelho à minha frente.
Meu olhos vão passando lentamente pelo meu reflexo estampado. Começo pelos pés. Minha unhas com um esmalte preto já descascando, alguns calos das minhas rasteirinhas, cicatriz que consegui arrancando um esparadrapo de uma vez de uma ferida que consegui em uma queda sinistra de escada (o dia em que eu praticamente voei). Vou seguindo pra minhas brancas e finas pernas, onde o osso principal é o foco por conta de meu peso abaixo do que deveria ser. Observo ainda, a raiz de alguns pelinhos que já estão crescendo (tô precisando depilar, eu admito). Subo então para meus joelhos, e minha barriga quase fica enjoada só de lembrar de quantas roxuras eu já consegui em cada um deles. Cada queda, que me fortaleceu, Cada esbarro em prateleiras que eu tive, cada cascão de ferida que eu arranquei, e que já tem tanto tempo que já nem existem mais marcas. Vou elevando meus olhos para minhas coxas mais brancas que as pernas, quase amarelas de tão brancas (teve lógica?). Algumas celulites normais de toda mulher. Subo pra minha barriga que até pouco tempo era mais cheinha e saudável, mas hoje, simplesmente observo cada osso de minhas costelas bem expostos, acompanhados de algumas estrias que consegui nessas minhas dietas e quebra de dietas.
Subo então para meu colo, meus seios pequenos que sempre me agradaram sendo assim mesmo, porque eu simplesmente não me imagino de outra forma, de outro jeito não combinariam comigo. Observo então mais acima minhas saboneteiras cada dia mais fundas e marcadas. Penso em como eu acho isso bonito, é às vezes forço mais ainda pra que apareçam. Meu pescoço, que vou virando lentamente para a esquerda e, depois para a direita, voltando meu olhar para frente. Passo minhas mãos lentamente por ele e sinto a diferença e como ele alongou desde minha infância e adolescência. Subo mais um pouco e olho minha mandíbula, antes gordinha, hoje, bem marcada e, na minha humilde opinião, muito bonita. Mais um pouco acima do queixo observo minha boca e acabo abrindo um sorriso, e lembro que graças a Deus, desde que eu passei a sentir, ela tem estado assim, sorrindo espontaneamente mais vezes do que já esteve cheia de “choro para engolir”. Minhas bochechas acabam saltando com meu sorriso e tomam parte de minha atenção. Às vezes pálidas, às vezes rosadas, mas sempre cheinhas. Observo meu osso zigomático (esse que fica acima da bochecha) e paro, lembrando que minha mãe odeia quando ele aparece demais e sempre pede pra eu dar uma engordadinha básica pra ele ficar menos aparente. Mas a verdade, é que eu gosto, porque ele assim, combina perfeitamente com minhas olheiras perfeitamente desenhadas abaixo dos meu olhos.
Olheiras essas, adquiridas com muito esforço, estresse do dia a dia, faculdade e noites em claro ou mal dormidas. Não são mais roxas como antigamente, mas não quero que elas sumam, porque eu sinto que elas demonstram a quantidade de esforço para superar várias das adversidades que em todos esses anos eu passei. Meus olhos, agora voltados para eles mesmo se enchem de lágrimas lentamente, porque nesse momento eu vejo por quanta coisa eu já passei, mas eu sei que nem metade do que eu passei vai ser tão mais empolgante, divertido e forte quanto eu acho que vou começar a viver agora. Me aproximo mais do espelho para observar meus cabelos com algumas pontas ressecadas e fico feliz por não colecionar nem um fio branco sequer (afinal, tinta tá caro né?).
Volto a me afastar do espelho e esbarro na cama atrás de mim, sentando logo após nela e percebendo que não observei meus braços e minhas mãos. Meus braços antes brancos, depois manchados de sol de um dia inteiro na piscina, e agora, menos brancos do sol que pego de vez em quando, quando resolvo mostrar minha cara ao mundo. Mais próximo de meus pulsos observo algumas marcas que não tenho vontade de lembrar, porque Deus já me restaurou de tudo isso e percebo que pela primeira vez eu entendo o meu amor absurdo por pulseiras. Cada uma delas cobre mais meus pulsos, tornando todo o conjunto mais bonito e demonstrando a alegria que hoje eu sinto. Por último, levanto minhas mãos na altura de meus olhos e as vou virando, observando minhas mãos, apesar de já adulta, tão infantis e pequenas, pelo menos são fofas. Vejo minhas unhas, antes marcadas pelo meu vício de roer e hoje feridas pelo meu novo vício chamado: alicates de unhas. Viro a palma e observo a vermelhidão em alguns lugares e a falta dela em outros.
Ainda sentada, levanto a cabeça novamente e vejo imagens não tão nítidas, causadas pela minha miopia. Até aqui Papai me ajudou. Até aqui, eu sei que, apesar de marcas físicas e emocionais, perdas, lágrimas, sorrisos, eu sei que até aqui Ele esteve comigo, e eu sei que estará a cada ano que passar, mais próxima dEle a cada dia, sempre. Hoje eu completo 20, mas mal espero pelos meus 21, 22, 23... e pelas crises de meia idade antecipadas que eu sei que terei. 20 anos, 240 meses, 7200 dias, 172800 horas, 10368000 mil minutos, 622080000 segundos... e muitas fases de lua.E muitos mais ainda estão por vir...
É como eu disse, eu mal posso esperar pelo que me aguarda e pelas marcas que ainda irei guardar, sejam elas, boas ou ruins, cada uma, de uma forma ou de outra, juntas, irão ainda mais me formar.
heterônima
sobre
Olá, sou a Carol. Escrevo porque gosto, escrevo quando quero e quando me sinto inspirada. Não te prometo textos sempre, mas prometo que sempre que tiver, cada palavra vai vir bem do fundo, ou do meu coração ou do meu estômago (sinta-se livre para deduzir). Seja bem vindo ao meu mundinho de letras, espaços, vírgulas e nenhum ponto, pelo menos, não ponto final <3

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